Setembro de 2015. Liz Parrish estava nervosa. Ela estava em um avião para a Colômbia, onde se submeteria a um tratamento genético nunca testado em humanos.
Ela e seus colegas passaram dois anos desenvolvendo o tratamento e fazendo os preparativos, mas não podiam saber como tudo terminaria.
É importante esclarecer logo de início: Tudo o que é descrito aqui é um experimento em uma única paciente (n=1), que relatou seus próprios resultados, sem grupo de controle, sem supervisão regulatória e sem publicação revisada por pares. Nenhuma conclusão médica pode ser tirada disso, e todos os números apresentados a seguir são alegações relatadas por Parrish e sua empresa, não fatos comprovados.
O tratamento consistiu em duas injeções intravenosas e ocorreu sem complicações imediatas.
Antes do tratamento, testes comerciais de telômeros (realizados no laboratório SpectraCell) indicaram, segundo Parrish, que o comprimento dos telômeros em seus glóbulos brancos era menor do que o esperado para sua idade, o que foi traduzido no teste como uma idade biológica relatada de cerca de 62 anos, enquanto sua idade cronológica na época era de 44 anos. Ou seja, uma diferença relatada de cerca de 17 a 18 anos, não de 22 anos como às vezes foi mencionado.
O primeiro relato de mudança não veio em semanas, mas sim cerca de seis meses depois, em março de 2016: um novo teste no laboratório indicou, segundo a empresa, um alongamento dos telômeros. Nos anos seguintes, Parrish publicou relatos adicionais de que sua idade biológica relatada continuou a diminuir, a uma taxa média, segundo ela, de cerca de cinco anos a cada ano calendário, até valores extremamente baixos.
E aqui é necessária muita cautela científica. Todos esses dados são baseados em autorrelato, em uma única paciente e em testes comerciais de telômeros, e não passaram por revisão por pares. Um problema central é que os testes de comprimento de telômeros sofrem de imprecisão de medição significativa: métodos comuns (como qPCR) apresentam variabilidade da ordem de cerca de 10% ou mais entre medições, dependendo do dia do teste e do laboratório. Isso significa que grande parte da "mudança" relatada pode ser devida a ruído de medição e não a uma alteração biológica real. Além disso, o comprimento dos telômeros dentro da faixa normal não é considerado um marcador confiável para determinar uma "idade biológica" precisa. Portanto, os números impressionantes relatados por Parrish devem ser vistos com ceticismo saudável, como alegações não verificadas e não como resultados comprovados.
Liz publica esses dados para o público, mas sua abordagem é controversa.
George Martin, professor de patologia da Universidade de Washington, foi consultor da BioViva, empresa de Liz Parrish, mas renunciou ao saber da viagem à Colômbia e da realização do tratamento fora de um ensaio clínico controlado.
Maria Blasco, a cientista espanhola cujo trabalho pioneiro sobre telomerase está na base da lógica do tratamento, insiste que tais tratamentos não devem ser administrados sem ensaios rigorosos validados pelo FDA e outras agências reguladoras.
Liz não se arrepende. Ela não discorda da necessidade de tornar o tratamento médico o mais seguro possível, mas observa que ele nunca pode ser totalmente isento de riscos.
"Pessoas morrem de medicamentos aprovados o tempo todo", ela argumenta. O tipo de tratamento que ela tomou mostrou resultados em camundongos por mais de uma década.
Mas é importante enfatizar: camundongos e humanos são espécies muito diferentes, e não existem dados reais de segurança em humanos além de seu experimento individual. Em outras palavras, não foi comprovado que o tratamento é seguro em humanos; no máximo, pode-se dizer que, no caso isolado dela, nenhum dano foi observado até agora.
Nos anos que se passaram desde seu tratamento, Liz encontrou-se com presidentes, ministros da saúde e formuladores de políticas em todo o mundo.
Há grande interesse em seus argumentos, mas também receio de sair do status quo.
Liz espera que uma das maneiras de superar essa resistência seja tornar novos tratamentos disponíveis para pacientes em fim de vida sem os testes habituais, pacientes que tentaram todas as abordagens aprovadas e não têm alternativa.
Leva muitos anos e bilhões de dólares para trazer um novo medicamento ao mercado, o que significa que muitos tratamentos promissores nunca têm chance.
Um resultado disso é o aumento do turismo médico, com pacientes viajando para clínicas fora da jurisdição do FDA e agências similares.
Muitas dessas clínicas são instituições de boa reputação e gestão profissional, mas outras são menos confiáveis.
Liz argumenta que a existência do turismo médico é um sinal de que algo está errado com o establishment médico e, segundo ela (uma alegação não verificada), grande parte dos ensaios médicos realizados por grandes empresas farmacêuticas ocorre fora dos Estados Unidos.
Não há como saber quantas pessoas seguiram o caminho de Liz Parrish, mas ela acredita que são muitas. Considerando que os resultados que ela relata não foram verificados de forma independente nem passaram por revisão por pares, não é surpreendente que a comunidade científica em geral permaneça cautelosa e cética.
O contexto científico: Telômeros e Telomerase
O principal tratamento genético que Liz recebeu visava alongar seus telômeros. (Ela também recebeu um inibidor de miostatina para combater a perda de massa muscular.)
Nossos genes são compostos por cadeias entrelaçadas de moléculas de DNA chamadas cromossomos.
Quando nossas células se dividem, as pontas dessas cadeias se desgastariam se não fosse a proteção fornecida pelos telômeros.
Os telômeros são segmentos de DNA repetitivo nas extremidades dos cromossomos, que atuam como uma espécie de "amortecedor" descartável.
Quando uma célula se divide além de um certo número (o chamado limite de Hayflick, geralmente entre 50 e 70 divisões), os telômeros encurtam significativamente e a estabilidade do cromossomo é comprometida.
Uma enzima chamada telomerase pode realongar os telômeros e manter a estabilidade genética da célula, por isso está no centro da pesquisa sobre envelhecimento.
A idade biológica relatada de Liz Parrish foi estimada com base no comprimento dos telômeros em seus glóbulos brancos, especialmente nos linfócitos T, um tipo de glóbulo branco que desempenha um papel importante na resposta imunológica do corpo.
O tratamento genético é geralmente administrado por meio de vírus, chamados "vetores".
O tratamento que Liz Parrish usou em 2015 utilizou um vetor chamado AAV, e sua empresa posteriormente trabalhou em um vetor diferente baseado em citomegalovírus (CMV).
Ambas as tecnologias são baseadas em vírus que ocorrem naturalmente em humanos e macacos, e ambas visam fornecer genes que produzem telomerase sem alterar a sequência do cromossomo em si.
A vantagem do CMV é que ele pode transportar cargas genéticas maiores que o AAV, e a BioViva buscou desenvolver tratamentos usando múltiplos genes para influenciar o processo de envelhecimento.
Nesse contexto, a BioViva colaborou com pesquisadores da Universidade Rutgers para desenvolver a tecnologia.
Ressalva fundamental: Essa colaboração de pesquisa resultou em um artigo publicado na revista PNAS em 2022 (Jaijyan e colaboradores, "Terapia genética para prolongar a vida saudável"). Este artigo foi retratado (retracted) em agosto de 2025, a pedido do Escritório de Regulamentação de Pesquisa da Universidade Rutgers, após uma investigação interna que encontrou inconsistências nos dados (incluindo problemas de imagens duplicadas). Trata-se de uma ressalva significativa quanto à confiabilidade de parte das publicações científicas relacionadas a essa tecnologia, e deve ser levada em consideração ao avaliar as alegações.
A própria Liz Parrish não acredita (e com razão) que apenas o alongamento dos telômeros seja suficiente para vencer o envelhecimento.
Existem diferentes espécies cujos telômeros encurtam rapidamente, e vice-versa.
A biologia humana é extremamente complexa, e o envelhecimento não será derrotado por uma única "bala de prata".
Mas Parrish acredita (como muitos outros cientistas) que o alongamento dos telômeros pode ter um papel na luta contra o envelhecimento. No entanto, a tradução dessa ideia promissora em um tratamento seguro e comprovado em humanos ainda está longe de ser estabelecida, e o caminho para isso passa por ensaios clínicos controlados, e não por experimentos não supervisionados em si mesmos.
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