A sarcopenia – a perda gradual de massa e força muscular com a idade – é um dos problemas centrais da longevidade. A massa muscular diminui cerca de 3 a 8 por cento a cada década a partir dos 30 anos, e a taxa de perda acelera ainda mais após os 60 anos, de modo que, ao longo da vida, uma pessoa pode perder cerca de um terço da massa muscular. A sarcopenia tem um componente genético que a ciência está apenas começando a mapear, e a maior parte da pesquisa genética até hoje foi realizada em populações de origem europeia. Um grande estudo coreano tenta preencher essa lacuna.
Por que a genética étnica é importante?
A sarcopenia é um fenômeno comum em todo o mundo. Sua prevalência varia muito de acordo com os critérios de diagnóstico e a população estudada: entre adultos com mais de 65 anos que vivem na comunidade, ela varia aproximadamente entre 5% e 13%, e aumenta significativamente com a idade – de acordo com os critérios AWGS 2019 (Grupo de Trabalho Asiático para Sarcopenia), sua prevalência em homens asiáticos saltou de apenas 1,5% na faixa etária de 60-69 anos para cerca de 33% acima dos 80 anos.
Parte das diferenças entre populações decorre da dieta e da atividade física, mas também há uma camada genética. Aqui surge um problema fundamental: a maioria dos estudos de varredura genética (GWAS) sobre sarcopenia foi realizada em populações de origem europeia, e muito pouco se sabe sobre os fatores genéticos em idosos do Leste Asiático. Uma variante genética comum em uma população pode ser rara em outra e, portanto, os achados de um estudo europeu não se traduzem necessariamente diretamente para outras populações.
O estudo: GWAS em quase 7.000 participantes
No estudo publicado na revista Scientific Reports em 2022 (Jin e colaboradores), os pesquisadores analisaram dados genéticos de 6.961 participantes de duas populações coreanas: a coorte VHSMC (cerca de 1.781 participantes, idade média de aproximadamente 69 anos) e a coorte KARE, maior (cerca de 5.180 participantes, idade média de aproximadamente 63 anos).
Em vez de se basear apenas em um diagnóstico dicotômico, os pesquisadores examinaram medidas quantitativas de músculo e corpo:
- Massa Corporal Magra (Lean Body Mass, LBM) – toda a massa corporal sem gordura.
- Massa Muscular Esquelética Apendicular (Appendicular Skeletal Muscle Mass, ASM) – o músculo dos braços e pernas, uma medida central para a sarcopenia.
- Índice de Músculo Esquelético (Skeletal Muscle Index, SMI).
A análise de GWAS comparou a frequência de milhões de variantes genéticas (SNPs) entre participantes com mais e menos massa muscular, a fim de identificar variantes estatisticamente associadas às medidas musculares.
Os achados: novas variantes genéticas
Após correções estatísticas rigorosas, a equipe identificou várias regiões genéticas com associação significativa à massa muscular. Os principais marcadores genéticos identificados foram:
- A variante rs1187118 próxima aos genes RPS10 e NUDT3, associada à massa corporal magra (LBM).
- A variante rs3768582 na região dos genes NCF2, SMG7 e ARPC5, também associada à massa corporal magra.
- A variante rs6772958 próxima ao gene GPD1L, associada à massa muscular esquelética apendicular (ASM).
Os pesquisadores descobriram que esses genes são expressos de forma diferente no tecido muscular e os associaram principalmente ao metabolismo de lipídios e energia. Ou seja, a ideia que emerge do estudo é que parte da tendência a perder músculo com a idade está relacionada à regulação metabólica das células musculares, e não apenas às proteínas estruturais do próprio músculo. É importante notar que o conhecido gene de desempenho esportivo ACTN3 não estava entre os achados deste estudo; ele é investigado em outros contextos e não é um dos "novos genes" que surgiram aqui.
Por que isso é importante?
O valor do estudo reside principalmente em expandir o banco de conhecimento genético sobre sarcopenia para além das populações de origem europeia:
- A diversidade populacional na pesquisa é essencial. A frequência das variantes pode variar entre grupos étnicos e, portanto, é importante estudar populações diversas, e não apenas aquelas que participaram dos primeiros estudos.
- A ligação com o metabolismo abre direções de pesquisa. Se variantes metabólicas realmente afetam a manutenção muscular, pode haver aqui novas vias biológicas para entender o processo.
- Este é um passo inicial, não uma conclusão final. Trata-se de associações estatísticas que exigem confirmação em estudos adicionais; não há um teste genético pronto para uso ou um novo tratamento.
O que realmente pode ser feito contra a sarcopenia?
Enquanto a genética ainda está em fase de mapeamento, o tratamento comprovado para a sarcopenia é bem conhecido e não depende de um teste genético. As recomendações baseadas em evidências, de acordo com as diretrizes do AWGS 2019, são:
- Treinamento de resistência (força) – o único fator comprovado repetidamente para aumentar a massa e a força muscular, mesmo em idades avançadas.
- Ingestão adequada de proteínas – para a maioria dos idosos, recomenda-se uma ingestão maior do que para os jovens, distribuída ao longo do dia.
- Atividade física geral e evitar o sedentarismo, que acelera a perda muscular.
É importante ressaltar: intervenções como suplementos de hormônio do crescimento não são um tratamento recomendado para sarcopenia, não são apoiadas por diretrizes e não são isentas de riscos. Não há necessidade de testes de SNP para saber o que fazer – treinamento de força e nutrição adequada ajudam a todos.
A mensagem mais ampla
O estudo coreano é um exemplo de um princípio mais amplo na medicina personalizada: a genética não é universal, e os estudos precisam incluir populações diversas. Se a ciência busca cumprir a promessa da medicina personalizada na era do antienvelhecimento, ela deve trabalhar com diferentes populações, e não apenas com aquelas que participaram dos primeiros estudos. Por enquanto, a base é clara: treinamento de resistência e uma dieta rica em proteínas são a forma comprovada de manter os músculos com a idade.
Referências:
Jin H. et al. (2022). Unveiling genetic variants for age-related sarcopenia by conducting a genome-wide association study on Korean cohorts. Scientific Reports. DOI: 10.1038/s41598-022-07567-9
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