A cada poucos anos, um cogumelo exótico salta da cozinha da medicina tradicional chinesa diretamente para a prateleira de suplementos e para a indústria cosmética. Tremella (Tremella fuciformis) é um exemplo claro: um cogumelo branco, gelatinoso e semitransparente que parece uma flor de gelo, e na China é chamado de "cogumelo da neve" ou, não por acaso, "cogumelo da beleza". Há séculos, atribui-se a ele um efeito na hidratação da pele e na aparência jovem, e por gerações, mulheres chinesas o consumiam como uma sopa doce para preservar a pele do rosto.
Nos últimos anos, essa tradição encontrou o laboratório, e descobriu-se que, por trás da história da beleza, existe um mecanismo real. Os polissacarídeos da Tremella, essas longas cadeias de açúcar que compõem seu corpo gelatinoso, estão entre as moléculas que armazenam água com a maior potência na natureza e, em estudos cosméticos, foram comparados diretamente à capacidade de retenção de água do ácido hialurônico. Mas entre "armazenar água em um tubo de ensaio" e "alisar rugas ao engolir uma cápsula" há uma grande distância. No artigo, explicaremos o que a Tremella realmente faz, o que as evidências mostram, onde ainda são fracas e por que a classificamos como amarela.
O que é Tremella?
Tremella é um cogumelo comestível da família Tremellaceae, que cresce em árvores em decomposição em regiões tropicais e subtropicais. Na culinária chinesa e asiática, é usado como alimento e, na indústria de saúde e cosméticos, é vendido como suplemento (em pó ou cápsulas) e como ingrediente em cremes e séruns. Aqui está o que é importante entender sobre ele:
- O principal componente ativo são os polissacarídeos. Os polissacarídeos da Tremella (TFPS) são cadeias de açúcar complexas e de alto peso molecular, e são considerados responsáveis pela maior parte de sua atividade biológica.
- Ele armazena água com uma potência excepcional. Fontes da indústria cosmética indicam que seus polissacarídeos são capazes de armazenar centenas de vezes seu peso em água, o que o tornou um candidato natural para substituir ou complementar o ácido hialurônico em produtos hidratantes.
- Possui atividade antioxidante e anti-inflamatória. Em estudos de laboratório, seus polissacarídeos neutralizam radicais livres e afetam mediadores inflamatórios, o que explica o interesse em seu efeito na pele e no envelhecimento.
- Atribuem-se a ele outros efeitos. Na literatura científica, também foram examinados efeitos neuroprotetores, imunológicos, hipoglicemiantes (redução de açúcar) e hipolipidêmicos (redução de gorduras no sangue), a maioria ainda em estágios iniciais de pesquisa.
É importante distinguir entre duas formas de uso completamente diferentes: uso tópico (creme ou sérum aplicado na pele) versus ingestão oral (suplemento que se engole). A maioria das evidências mais fortes para a hidratação da pele vem justamente do uso tópico ou de estudos de laboratório, enquanto a questão de se a ingestão de pó de Tremella melhora a pele é uma questão separada e menos fundamentada. Essa distinção nos acompanhará ao longo de todo o artigo.
A relação com a hidratação da pele: o mecanismo
Este é o cerne da história da Tremella, e também o lugar onde o mecanismo é, de fato, biologicamente plausível. A questão não é se a Tremella armazena água, ela certamente armazena, mas se essa capacidade se traduz em uma pele mais hidratada e jovem na prática.
Primeiro mecanismo, armazenamento físico de água. Os polissacarídeos da Tremella são hidrocoloides, ou seja, moléculas que formam um gel e ligam grandes quantidades de água. Quando aplicados na pele, podem criar uma fina camada de hidratação transparente que reduz a perda de água transepidérmica (TEWL). Este é exatamente o princípio por trás do ácido hialurônico e, por isso, a Tremella é frequentemente apresentada como o "ácido hialurônico natural".
Segundo mecanismo, molécula menor. Parte dos polissacarídeos da Tremella tem um peso molecular relativamente baixo em comparação com algumas cadeias de ácido hialurônico, o que, teoricamente, poderia permitir uma melhor penetração nas camadas superiores da pele. Esta é uma afirmação interessante, mas ainda não suficientemente fundamentada em pesquisas humanas de alta qualidade, e deve ser tratada como uma hipótese, não como um fato.
Terceiro mecanismo, efeito nos mecanismos de hidratação da própria pele. Estudos descobriram que polissacarídeos do tipo Tremella podem aumentar a expressão de fatores relacionados à hidratação da pele, como a aquaporina-3 (AQP3, um canal de água nas células da pele) e a enzima para produção de ácido hialurônico (HAS2). Em outras palavras, é possível que a Tremella não apenas forneça hidratação externamente, mas também estimule a pele a reter hidratação por si só. Além disso, sua atividade antioxidante pode proteger as células da pele (fibroblastos) de danos oxidativos, o que é relevante para o envelhecimento da pele.
As evidências atuais
Estudo 1: Capacidade de retenção de umidade, estudo no Molecules de 2019
Uma das evidências que fundamentam a principal propriedade da Tremella é um estudo que examinou a capacidade de retenção de umidade de seus polissacarídeos. Em 2019, foi publicado no periódico Molecules um estudo que investigou como diferentes processos de secagem afetam a capacidade de retenção de umidade e a estabilidade térmica dos polissacarídeos da Tremella.
Os achados confirmaram a propriedade básica: os polissacarídeos da Tremella demonstraram alta capacidade de retenção de umidade, sendo que o processo de liofilização (freeze-drying) preservou a melhor capacidade. Este estudo é importante porque estabelece a pedra angular de todas as alegações de hidratação, mas observe a distinção: ele confirma que a molécula armazena água, não que a ingestão do suplemento alisa a pele do rosto. São duas alegações diferentes.
Estudo 2: Hidratação em produto cosmético, estudos de formulação de 2023
No campo da cosmética, a Tremella foi examinada em preparações tópicas. Em estudos de formulação, descobriu-se que produtos contendo extrato de Tremella reduziram a perda de água transepidérmica (TEWL) e, em um estudo, foi medida uma redução de cerca de 12% na perda de água. Em outros estudos, alegou-se que uma baixa concentração de polissacarídeos de Tremella manteve a hidratação melhor do que uma concentração mais alta de ácido hialurônico.
Esses são achados encorajadores, mas devem ser lidos com cautela. Trata-se de estudos de preparações tópicas, geralmente pequenos e de curto prazo, alguns com vínculo com a indústria, e não de grandes ensaios clínicos independentes. Eles estabelecem que a Tremella é um ingrediente hidratante razoável em um creme, mas não provam que é "superior" ao ácido hialurônico na pele humana a longo prazo.
Estudo 3: Efeito neuroprotetor, ensaio controlado de 2018
Além da pele, uma das áreas mais intrigantes em torno da Tremella é o possível efeito no cérebro. Em 2018, foi publicado no Journal of Medicinal Food um pequeno ensaio controlado randomizado que examinou a eficácia e a segurança da Tremella em pessoas com comprometimento cognitivo subjetivo (sensação de declínio de memória).
O ensaio relatou melhora em algumas medidas de memória no grupo que tomou Tremella, bem como um bom perfil de segurança. O achado está alinhado com estudos em animais, nos quais o extrato de Tremella melhorou o aprendizado e a memória em ratos e estimulou o crescimento de neurônios em células PC12 através da via CREB e do sistema colinérgico. No entanto, trata-se de um único estudo humano pequeno, e são necessários ensaios maiores, mais longos e independentes antes que se possa recomendar a Tremella para a saúde do cérebro. É um sinal promissor, não uma prova.
E quanto ao açúcar, gorduras no sangue e sistema imunológico?
Além da pele e do cérebro, os polissacarídeos da Tremella foram examinados em alguns contextos metabólicos e imunológicos, embora as evidências sejam mais fracas. Estudos iniciais, principalmente em animais, indicaram um possível efeito na redução dos níveis de açúcar no sangue e na melhora do perfil lipídico, bem como uma atividade moduladora do sistema imunológico. Também foi examinado um possível efeito na dermatite atópica (eczema) em camundongos, onde a ingestão oral mostrou um efeito melhor do que o uso tópico na perda de água transepidérmica.
O quadro geral nessas áreas é idêntico ao da área da pele: mecanismos plausíveis e achados promissores em laboratório e em animais, mas falta de grandes estudos humanos que traduzam isso em uma recomendação clínica. Este é exatamente o padrão que leva a uma classificação amarela: potencial real, mas uma lacuna de evidências que ainda não foi preenchida.
Vale a pena começar a tomar Tremella?
Esta é a razão pela qual classificamos a Tremella como amarela. Por um lado, há um mecanismo real e interessante e um bom perfil de segurança; por outro, há uma grande lacuna entre o marketing ("ácido hialurônico natural de dentro para fora") e as evidências humanas reais. Aqui estão as considerações:
- A lacuna entre tópico e ingestão oral, o ponto mais importante. A maioria das evidências para a hidratação da pele vem do uso tópico ou de laboratório. Não há prova forte de que a ingestão de pó de Tremella melhora a hidratação da pele do rosto da mesma forma que um creme com Tremella (ou ácido hialurônico) faz externamente. Se o objetivo é a hidratação da pele, é provável que um bom produto tópico seja uma aposta mais segura do que um suplemento oral.
- O marketing está à frente da ciência. A Tremella é frequentemente comercializada como o "segredo de beleza chinês" comprovado cientificamente. Na prática, a maioria dos estudos é pequena, preliminar ou in vitro, e alegações de "alisar rugas" ou "antienvelhecimento de dentro para fora" vão muito além das evidências.
- Segurança relativamente boa. A Tremella é considerada um cogumelo comestível e é bem tolerada na maioria dos casos. Os efeitos colaterais, quando ocorrem, são leves e geralmente relacionados ao sistema digestivo. No entanto, a ausência de alertas dramáticos não significa que seja eficaz.
- A qualidade do produto é importante. Como em qualquer suplemento de cogumelo, é aconselhável escolher um produto de fonte confiável que indique a parte usada (corpo frutífero versus micélio) e a concentração de polissacarídeos, e de preferência com teste de terceiros.
Há também grupos que precisam de cautela. Pessoas que tomam medicamentos anticoagulantes devem consultar um médico, pois certos polissacarídeos de cogumelos têm um possível efeito na coagulação do sangue. Quem toma medicamentos para baixar o açúcar deve estar atento à possibilidade de um efeito aditivo. Mulheres grávidas ou amamentando, e aquelas com doença crônica ou que tomam medicamentos regulares, devem obter autorização médica antes de tomar, simplesmente porque não há dados de segurança suficientes nessas situações.
O que realmente levar da pesquisa?
- Se o objetivo é a hidratação da pele, considere um produto tópico. As evidências mais fortes para a Tremella estão na capacidade de reter água em uma preparação. Um creme ou sérum com Tremella (ou, simplesmente, com ácido hialurônico comprovado) é uma aposta mais direta do que a ingestão de pó.
- Não espere milagres da ingestão. A ingestão de Tremella não foi comprovada como capaz de alterar a pele do rosto. Se ainda assim quiser tentar, trate isso como um possível pequeno complemento, não como uma solução.
- Mantenha uma fonte de qualidade. Escolha um produto que indique corpo frutífero, concentração de polissacarídeos e, de preferência, teste de terceiros. No mundo dos suplementos de cogumelos, há uma enorme variação na qualidade.
- Lembre-se dos fundamentos para uma pele jovem. O maior efeito na aparência da pele vem da proteção solar (protetor solar), sono, alimentação e evitar o tabagismo, não de um único suplemento de cogumelo.
- Consulte se estiver em um grupo de risco. Quem toma anticoagulantes ou medicamentos para diabetes, ou está grávida, precisa de autorização médica antes de tomar.
Para quem quiser experimentar Tremella de uma fonte confiável, é possível comprar Tremella no iHerb e escolher marcas que publiquem a concentração de polissacarídeos e testes de laboratório. Mas lembre-se: com cogumelos, a qualidade da fonte e os dados sobre o produto são tudo. Para verificar quais suplementos são realmente adequados para seus objetivos, incluindo a saúde da pele, de acordo com sua idade e condição, você pode usar nosso verificador de suplementos pessoal que classifica cada suplemento de acordo com a qualidade das evidências.
A perspectiva ampla
A Tremella é um belo exemplo da lacuna entre a sabedoria tradicional e a ciência moderna. Por um lado, a tradição chinesa estava certa ao identificar algo real: os polissacarídeos do cogumelo da neve realmente armazenam água com potência, de uma forma que lembra o ácido hialurônico, e têm atividade antioxidante e sinais neuroprotetores iniciais. Por outro lado, a imagem de um "segredo de beleza comprovado que restaura a juventude" correu muito antes que a pesquisa humana conseguisse acompanhá-la.
A lição prática é dupla. Primeiro, quando se trata de hidratação da pele, é importante separar o que se aplica na pele do que se ingere: as evidências para a Tremella são fortes principalmente em preparações tópicas e in vitro, fracas na ingestão oral. Segundo, mesmo quando o mecanismo é real, ele não substitui o básico. Uma pele jovem e saudável é construída principalmente com proteção solar, sono, alimentação e estilo de vida, e a Tremella pode ser, na melhor das hipóteses, um pequeno e seguro complemento. E essa é exatamente a perspectiva que mantemos aqui: respeitar a tradição, mas classificar cada suplemento de acordo com o que a ciência realmente mostra, quando é promissor e quando é melhor ser cauteloso.
Referências:
Differences in the Moisture Capacity and Thermal Stability of Tremella fuciformis Polysaccharides Obtained by Various Drying Processes, Molecules, 2019;24(15):2856 (DOI: 10.3390/molecules24152856)
Bae H. et al., Efficacy and Safety of Tremella fuciformis in Individuals with Subjective Cognitive Impairment: A Randomized Controlled Trial, Journal of Medicinal Food, 2018 (DOI: 10.1089/jmf.2017.4063)
Shen T. et al., Tremella fuciformis polysaccharide suppresses hydrogen peroxide-triggered injury of human skin fibroblasts via upregulation of SIRT1, Molecular Medicine Reports, 2017 (DOI: 10.3892/mmr.2017.6892)
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