Na última década, o NAD+ (Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo) tornou-se uma das moléculas mais estudadas no mundo do anti-envelhecimento. A história é simples e empolgante: os níveis de NAD+ caem significativamente com a idade, e junto com eles, a função mitocondrial, a produção de energia e a capacidade de reparo do DNA também diminuem. Suplementos que aumentam o NAD+, principalmente NMN (Mononucleotídeo de Nicotinamida) e NR (Ribosídeo de Nicotinamida), são vendidos globalmente a um custo de bilhões de dólares por ano.
Mas uma nova pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Case Western Reserve, publicada no periódico Cancer Letters em 2026 e amplamente divulgada (inclusive no Nutrition Insight em 16 de abril de 2026), apresenta uma descoberta preocupante: o mesmo NAD+ que ajuda células saudáveis a envelhecer mais lentamente também pode ajudar células cancerígenas a sobreviver a tratamentos que deveriam matá-las. É importante dizer desde já: essas descobertas foram obtidas em laboratório e em camundongos, não em humanos. São um alerta fundamentado, não uma prova clínica.
O que é NAD+ e por que é essencial
NAD+ é uma coenzima encontrada em todas as células vivas. Suas funções:
- Produção de energia, essencial para o funcionamento da cadeia de transporte de elétrons nas mitocôndrias.
- Reparo de DNA, a enzima PARP, que repara quebras na fita de DNA, consome grandes quantidades de NAD+.
- Sinalização celular, as enzimas Sirtuína (incluindo SIRT1, um ator-chave no campo do anti-envelhecimento) requerem NAD+ para funcionar.
- Regulação metabólica, equilíbrio entre a produção de energia e a eliminação de subprodutos.
Até aqui, a história é positiva. O problema? As células cancerígenas precisam de NAD+ tanto quanto as células saudáveis, e às vezes até mais, para sobreviver e se dividir.
Por que as células cancerígenas são ávidas por NAD+
As células cancerígenas são células que se dividem rapidamente, consomem energia em excesso e acumulam danos constantes ao DNA devido à taxa de divisão. Cada uma dessas características requer um alto consumo de NAD+:
- Divisão celular rápida = mais síntese de DNA = mais produção de energia nas mitocôndrias = mais NAD+ consumido.
- Alto estresse oxidativo (típico do câncer) = mais danos ao DNA = mais atividade da PARP = mais NAD+ consumido.
- Sobrevivência ao tratamento: quando a quimioterapia tenta matar a célula através de danos ao DNA e estresse oxidativo, um grande reservatório de NAD+ permite que a célula se repare e evite a morte.
Uma enzima chamada NAMPT, que é a etapa limitante da síntese de NAD+, é superexpressa em muitos tipos de câncer e está ligada a um pior prognóstico em vários estudos. Exatamente por isso, inibidores de NAMPT (medicamentos que bloqueiam a produção interna de NAD+ e o esgotam) são estudados há anos como drogas anticâncer, destacando o quanto as células cancerígenas dependem do NAD+ para sua sobrevivência.
As evidências: o que a nova pesquisa realmente descobriu
O estudo principal: câncer de pâncreas e resistência à quimioterapia (Cancer Letters, 2026)
Uma equipe liderada pelo Prof. Jordan Winter, da Case Western Reserve, investigou como os suplementos de NAD+ (NMN, NR e outras formas de vitamina B3) afetam as células de câncer de pâncreas. Tanto em experimentos de laboratório (culturas de células) quanto em modelos de camundongos, os suplementos, especialmente o NMN, protegeram as células de câncer de pâncreas de três medicamentos quimioterápicos padrão: oxaliplatina, 5-fluorouracil (5-FU) e gencitabina.
Os pesquisadores descreveram três mecanismos pelos quais os suplementos prejudicaram a eficácia do tratamento:
- Aumento da energia das células cancerígenas, tornando os tumores mais fortes e resistentes.
- Redução do estresse oxidativo no tumor, neutralizando um dos principais mecanismos da quimioterapia para matar células cancerígenas.
- Supressão dos danos ao DNA e da morte celular, bloqueando o processo no qual a quimioterapia se baseia para funcionar.
Em outras palavras: o suplemento forneceu às células cancerígenas exatamente o combustível de que precisam para sobreviver a doses de medicamentos que deveriam ser letais. O Prof. Winter pediu uma revisão de rotina do uso de suplementos em todos os pacientes com câncer e mais pesquisas clínicas sobre a interação entre suplementos de NAD+ e tratamentos oncológicos.
Outro sinal de alerta: NR e câncer de mama em camundongos
Esta não é uma descoberta isolada. Um estudo anterior de 2022 (Maric e colaboradores), que desenvolveu um sensor bioluminescente para rastrear a absorção de NR em camundongos vivos, encontrou uma ligação entre NR, o metabolismo do NAD+ e metástases: linhagens mais agressivas de câncer de mama (triplo-negativo) absorveram mais NR, e o suplemento foi associado a um aumento na disseminação metastática, inclusive para o cérebro, em um modelo de camundongos imunossuprimidos. Assim como o estudo do pâncreas, trata-se de camundongos e um modelo específico, não de humanos, mas é mais uma bandeira vermelha sobre o uso de suplementos de NAD+ em pessoas com câncer ativo ou alto risco.
Importante para equilíbrio: vitamina B3 nem sempre é prejudicial
Para não causar pânico, é importante fazer uma ressalva: a niacinamida (uma forma de vitamina B3) reduziu a recorrência de cânceres de pele não melanoma no ensaio clínico controlado ONTRAC (NEJM 2015), no qual 500 mg duas vezes ao dia reduziram a taxa de novos tumores em cerca de 23% em um grupo de alto risco. Ou seja, o efeito depende do contexto, do tipo de câncer, da forma da vitamina e da dose, e o alerta específico aqui diz respeito ao NAD+ e seus suplementos impulsionadores (NMN/NR) na presença de um tumor existente sob tratamento, não a toda vitamina B3 em qualquer situação.
Por que isso não 'virou manchete' há muito tempo?
A ligação entre NAD+ e câncer é conhecida pelos pesquisadores há mais de duas décadas. Inibidores de NAMPT, como a molécula FK866 descrita pela primeira vez em 2003, são estudados como drogas anticâncer justamente porque o esgotamento do NAD+ prejudica as células cancerígenas. Ou seja, a dependência do câncer em relação ao NAD+ é bem conhecida, mas a indústria de suplementos de NAD+ se desenvolveu paralelamente, com base em estudos em camundongos saudáveis e, às vezes, sem considerar adequadamente as implicações para pacientes com câncer ou pessoas em risco.
Devemos parar de tomar NMN?
A resposta depende de quem você é:
Se você é uma pessoa saudável, sem risco aumentado de câncer
As evidências de perigo específico para você são limitadas, e a maioria dos estudos de alerta foi feita em células cancerígenas ou camundongos com tumores. Se você é saudável, sem histórico familiar de câncer e sem fatores de risco, o risco permanece teórico neste momento. No entanto, o benefício comprovado em anti-envelhecimento em humanos ainda é limitado.
Se você tem histórico familiar de câncer
Recomenda-se cautela. Células pré-cancerosas podem existir no corpo por anos antes de se desenvolverem em um tumor visível, e, em princípio, um suplemento que aumenta o NAD+ pode apoiar essas células também. Vale a pena consultar um médico antes do uso regular.
Se você é um sobrevivente de câncer ou está em tratamento ativo
Esta é a mensagem mais contundente da pesquisa: converse com seu oncologista antes de tomar qualquer suplemento que aumente o NAD+, incluindo NMN, NR, niacina em altas doses e NAD+ intravenoso. De acordo com as descobertas pré-clínicas, esses suplementos podem prejudicar a eficácia da quimioterapia e ajudar o tumor a sobreviver ao tratamento.
Se você é idoso, sem histórico conhecido de câncer
Estatisticamente, a probabilidade de existirem células pré-cancerosas ainda não diagnosticadas aumenta com a idade. Esta é uma consideração que vale a pena levar em conta ao decidir se deve iniciar um suplemento de NAD+ regularmente, e uma conversa com um médico pode ajudar a ponderar isso.
O que fazer em vez disso
- Ative seu NAD+ naturalmente. Jejum intermitente e exercícios físicos aumentam o NAD+ e ativam as vias AMPK e SIRT1 sem a dosagem medicamentosa de um suplemento.
- Exercícios físicos regulares apoiam o metabolismo do NAD+ e a saúde mitocondrial através de mecanismos fisiológicos, não por meio de uma inundação externa da molécula.
- Se ainda assim tomar um suplemento, considere cuidadosamente a dosagem e consulte um médico, especialmente se houver fatores de risco.
- Mantenha os exames de rastreamento de câncer em dia de acordo com a idade e o sexo (por exemplo, colonoscopia, mamografia, exames de pele), especialmente se você toma NMN/NR regularmente.
- Procure um médico ou oncologista se você é um sobrevivente de câncer, está em tratamento ativo ou tem um fator de risco, antes de iniciar ou continuar um suplemento de NAD+.
A perspectiva mais ampla
A história do NAD+ não é a única em que um suplemento considerado seguro se revelou mais complexo do que se pensava. A vitamina E, antes considerada um antioxidante protetor, foi associada em grandes estudos a um aumento da mortalidade em altas doses. O betacaroteno demonstrou aumentar o risco de câncer de pulmão em fumantes. A lição se repete.
A conclusão final: 'natural' ou 'vendido sem receita' não equivale a 'seguro para todos e em qualquer situação'. Qualquer intervenção bioquímica não rotineira no corpo requer uma avaliação individual de risco-benefício. O NAD+ é um exemplo claro: bioquímica fascinante, potencial interessante, mas não para todos e nem em qualquer dose. Até que tenhamos grandes ensaios clínicos randomizados e controlados em humanos que documentem tanto o benefício anti-envelhecimento quanto a segurança oncológica, a cautela é a abordagem sensata, especialmente para pacientes com câncer e sobreviventes.
Referências:
Nutrition Insight - Suplementos de NAD+ Podem Alimentar Células Cancerígenas Resistentes ao Tratamento (16.4.2026)
Cancer Letters - Derivados da Vitamina B3 Apoiam a Sobrevivência de Células de Câncer de Pâncreas e a Resistência à Quimioterapia (Winter et al., 2026)
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